Resíduo têxtil também é matéria-prima: a circularidade que está mudando a indústria
Capas de fardo, estopas e resíduos gerados no processo de fiação, antes tratados como perda, ganham espaço como insumo em iniciativas que reduzem descarte e repensam a cadeia têxtil.
O setor têxtil está entre os que mais geram resíduo na indústria, mas ainda é um dos que menos sabe o que fazer com ele. Segundo pesquisa do Sebrae de abril de 2023, o Brasil produz cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, mas apenas 20% desse volume é reciclado. O restante, mais de 130 mil toneladas, tem como destino lixões e aterros sanitários.
O tema também ganhou força regulatória fora do país. Desde janeiro de 2025, a União Europeia tornou obrigatória a coleta seletiva de resíduos têxteis em todos os Estados-Membros, dentro da revisão da Diretiva-Quadro de Resíduos do bloco. Em setembro do mesmo ano, uma nova diretiva europeia avançou ainda mais, instituindo a responsabilidade do produtor para têxteis e calçados, o que passa a exigir que empresas do setor financiem e organizem a gestão do fim de vida de seus produtos. A medida sinaliza uma tendência que deve pressionar cadeias produtivas ao redor do mundo, inclusive as que exportam para o mercado europeu.
É nesse cenário que a circularidade deixa de ser discurso e passa a ser processo. Capas de fardo, estopas e outros resíduos gerados durante a fiação, que em boa parte da indústria ainda são simplesmente descartados, podem ser reincorporados à produção como insumo, reduzindo tanto o volume de resíduos quanto a necessidade de extração de matéria-prima virgem. A Incofios, empresa de fiação de algodão com cinco plantas produtivas entre Santa Catarina e Mato Grosso, é um exemplo de empresa que estruturou esse reaproveitamento como parte da rotina produtiva: em 2025, reciclou ou reaproveitou 97,30% dos 1.512.799,16 quilos de resíduos gerados em suas unidades, uma redução de 24,7% no volume total gerado em relação ao ano anterior, com apenas 2,7% do total direcionado a aterros sanitários.
Para o diretor geral da empresa, Edson Augusto Schlogl, o reaproveitamento de resíduos não é uma meta pontual. “Isso faz parte da cultura da Incofios e da forma como entendemos nosso papel dentro do setor têxtil. Trabalhamos com uma metodologia de organização que garante destino correto para cada tipo de resíduo gerado na fiação, da capa de fardo até a embalagem que sai da fábrica. Quando esse cuidado vira rotina, o resultado aparece nos números”, afirma.
Na Incofios, isso significa transformar o que antes era descarte em insumo com destino definido: parte dos resíduos do processo de fiação vira briquete usado como biocombustível em caldeiras, enquanto estopas limpas, material de varredura, sucatas e papelão seguem para reciclagem ou comercialização. A companhia também estendeu esse princípio à logística: em 2025, o volume de fios enviados de forma paletizada, em substituição às caixas de papelão, cresceu 31,34% em relação a 2024, o que evitou o uso de mais de 103 mil caixas e reduziu o consumo de mais de 108 mil quilos de papelão e 18,5 mil quilos de plástico.
O que o setor está testando
Fora da Incofios, outras frentes vêm sendo testadas pelo setor têxtil como um todo. Iniciativas de upcycling transformam retalhos e sobras em produtos de maior valor agregado, parcerias entre empresas e cooperativas de reaproveitamento dão destino a resíduos que uma fábrica isolada não consegue reincorporar sozinha, e programas de logística reversa junto a fornecedores e clientes ajudam a fechar o ciclo antes que o material chegue ao aterro. Nenhuma dessas estratégias substitui a outra, e é a combinação entre elas que vem permitindo a empresas do setor reduzir de forma consistente o volume que deixa a fábrica.
Enquanto a média nacional de reciclagem têxtil ainda gira em torno de 20%, empresas que já incorporaram a circularidade à operação mostram que reduzir resíduo não é incompatível com produzir em volume, é uma forma diferente de calcular o que sai da fábrica.
Sobre a Incofios
Fundada em 2001, em Indaial (SC), a Incofios é uma fabricante brasileira de fios de algodão com cinco unidades produtivas distribuídas entre Santa Catarina e Mato Grosso, capacidade de produção de aproximadamente 3.100 toneladas de fio por mês e cerca de 690 colaboradores. A empresa possui certificações BCI (Better Cotton Initiative) e SouABR, que atestam práticas de rastreabilidade e sustentabilidade na cadeia do algodão.
Comércio Local é Legal entra na reta final: consumidores têm até 11 de setembro para acumular números da sorte
Com mais de 2,5 mil estabelecimentos credenciados em SC, a campanha soma cinco meses de adesão.
A campanha Comércio Local é Legal 2026, promovida pela Fecomércio SC em parceria com sindicatos empresariais de diversas regiões do estado, entra em sua reta final. Os consumidores catarinenses têm até o dia 11 de setembro para registrar as compras e serviços feitos em estabelecimentos credenciados e acumular números da sorte para concorrer aos R$ 500 mil em prêmios que serão sorteados pela Loteria Federal.
Lançada oficialmente em 28 de abril, a iniciativa já soma quatro meses de campanha e caminha para o desfecho: a apuração dos resultados está marcada para 12 de setembro, e os ganhadores serão conhecidos em 15 de setembro, no Dia do Cliente. Para participar, o consumidor precisa reunir R$ 200 em compras ou serviços contratados em empresas credenciadas, fotografar a nota fiscal e concluir o cadastro na plataforma digital da campanha, no site comerciolocalelegal.fecomercio-sc.com.br. Somente após esse cadastro o número da sorte é gerado, e os valores podem ser somados em diferentes estabelecimentos até atingir o valor mínimo.
Segundo informações da campanha, em todo o estado são 2.574 estabelecimentos credenciados, um crescimento de 160% em relação à edição de 2025. Na região de Blumenau, são 175 empresas associadas a um dos quatro sindicatos parceiros: Secovi Blumenau, Sirecom Vale Europeu, SIESE-SC e Sindilojas Gaspar, que atuam em segmentos como imóveis, moda, materiais de construção, farmácias, autopeças e segurança eletrônica, entre outros. Na região, o Sindilojas é o sindicato com mais estabelecimentos adeptos da campanha.
Em Blumenau, o Secovi tem reforçado a mobilização dos empresários associados para que orientem seus clientes sobre o prazo que se aproxima. Para o presidente da entidade, Leonardo Vasselai Araujo, a reta final é o momento de intensificar a divulgação junto ao consumidor final. “Estamos na reta final e é justamente agora que muitos consumidores acabam deixando de aproveitar a campanha por não saberem do prazo. Nosso papel, junto aos empresários associados ao Secovi, é reforçar essa comunicação nas próximas semanas, para que ninguém perca a chance de participar comprando no comércio local”, afirma.
Os R$ 500 mil em prêmios serão distribuídos entre dois automóveis Volkswagen Polo 0 km, 150 smart TVs de 50 polegadas e 150 fornos elétricos Fischer, o dobro da premiação da edição anterior, que somou R$ 250 mil.
A Comércio Local é Legal 2026 é uma iniciativa da Fecomércio SC em parceria com os sindicatos empresariais das regiões participantes, com autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda sob o processo SPA/ME nº 04.048952/2026.
Startup de Brusque cria solução para o ‘pesadelo’ das garantias de produtos perdidas e estreia no maior evento de inovação do Brasil
A VERIFICA, fundada em Santa Catarina, usa inteligência artificial para avisar o consumidor antes que a garantia de qualquer produto vença.
A VERIFICA, startup de Brusque (SC), vai apresentar oficialmente ao público seu aplicativo de gestão de garantias de produtos durante o Startup Summit, entre os dias 26 e 28 de agosto, em Florianópolis. O evento é um dos maiores encontros de inovação e empreendedorismo da América Latina: a edição mais recente reuniu cerca de 10 mil participantes presenciais e 30 mil pessoas online. Fundada por cinco profissionais com trajetórias em finanças, marketing, tecnologia e gestão, a empresa nasceu de um projeto acadêmico e se tornou uma solução com aplicação prática para o consumidor e para o mercado de inovação.
Do MBA à startup de tecnologia
A ideia da VERIFICA surgiu há dois anos, durante um projeto de conclusão do MBA em Criptoativos e Blockchain cursado por três dos fundadores da empresa: Diogo Marchewsky, Lilian Salomão e Henrique Lourenço. Inicialmente, a solução era totalmente baseada em Blockchain e Web3, mas ao longo do desenvolvimento, o grupo percebeu que o documento que já garante legalmente a proteção do consumidor é a própria nota fiscal, e decidiu concentrar esforços no que realmente fazia diferença para quem compra: saber quando a garantia do produto vence. Assim nasceu o aplicativo que existe hoje, que usa inteligência artificial para ler a nota fiscal automaticamente, identificar o prazo de garantia de cada produto por marca, avisar o consumidor antes do vencimento e oferecer, no momento certo, a opção de contratar uma extensão de garantia diretamente pelo app, por meio de seguradoras parceiras.
Com a solução tomando forma, Diogo Marchewsky, hoje CEO da empresa, especialista em finanças e investimentos com mais de 17 anos de experiência em negócios digitais, convidou dois sócios de sua agência de e-commerce para integrar o time: Nei Pontes, à frente da área de growth e performance, com mais de 20 anos de carreira em marcas como Colcci e Havan; e Robson Zen, responsável pela experiência do usuário e pelo design do aplicativo, com mais de 15 anos dedicados a e-commerce e branding. Lilian Salomão, engenheira civil e gestora patrimonial com mais de 35 anos de trajetória em negócios e investimentos, assumiu a área de operações como COO.
Foi essa combinação de expertises que permitiu à equipe construir o produto sem depender de investidores externos. O aplicativo foi desenvolvido do zero, em conjunto com desenvolvedores capacitados, sem uso de plataformas prontas, e com um investimento de mais de R$ 200 mil inteiramente próprio ao longo de um ano.
Além do consumidor final, a VERIFICA também atende indústrias, varejistas e empresas de forma geral. Empresas e condomínios podem usar o aplicativo para gerenciar a garantia de vários equipamentos ao mesmo tempo. Indústrias parceiras da solução aumentam sua receita quando seu cliente compra uma extensão de garantia dentro do app e podem acompanhar a distribuição geográfica de seus produtos e o comportamento de compra no pós-venda, sem ter acesso a dados de clientes. Já para varejistas, principalmente os de menor porte que não têm volume suficiente para negociar diretamente com seguradoras, a plataforma abre a possibilidade de oferecer extensão de garantia e receber comissão pela venda.
“O VERIFICA nasceu para resolver um problema que todo mundo já viveu: comprar um produto, perder a nota fiscal ou simplesmente esquecer quando a garantia vence. Hoje, o aplicativo faz isso por você: lê a nota fiscal, calcula o prazo para cada marca e avisa antes do vencimento, com a opção de estender a garantia na hora mais conveniente”, explica Marchewsky.
A VERIFICA faz sua estreia pública junto à programação do Startup Summit, que deve reunir um público de mais de 40 mil pessoas entre presencial e online. Para Nei Pontes, sócio à frente da área de growth da empresa, o evento é uma oportunidade estratégica de crescimento. “Nossa meta é sair do Startup Summit com pelo menos 5% dos visitantes presentes cadastrados no aplicativo. É um público qualificado, já conectado ao ecossistema de inovação, então faz todo sentido começarmos por ali”, afirma.
Sobre o VERIFICA
O VERIFICA usa inteligência artificial e blockchain para automatizar a gestão de garantias de produtos. O aplicativo já está disponível gratuitamente: basta buscar por “VERIFICA” na App Store ou na Google Play.
Startup catarinense lança aplicativo que lê nota fiscal com IA e avisa quando a garantia está vencendo
VERIFICA chega ao mercado com tecnologia própria que automatiza o controle de garantias e abre acesso à extensão para qualquer consumidor ou empresa.
O VERIFICA, startup desenvolvida em Santa Catarina, lança ao público um aplicativo que usa inteligência artificial, por meio de um agente de OCR (reconhecimento óptico de caracteres), para ler a nota fiscal automaticamente e organizar as garantias dos produtos comprados pelo consumidor. A ferramenta identifica o prazo de garantia de cada equipamento por marca e categoria, e notifica o usuário antes do vencimento, possibilitando a contratação de extensão de garantia diretamente pelo app. Todo esse processo elimina o controle manual de papéis e datas. O aplicativo já pode ser baixado gratuitamente na App Store e na Google Play; a apresentação oficial ao mercado acontece no Startup Summit, entre os dias 26 e 28 de agosto, em Florianópolis.
O momento de chegada ao mercado é estratégico. Segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), o setor de garantia estendida arrecadou R$ 4,1 bilhões em 2025 e teve alta de 12,4% no primeiro bimestre de 2026. Para os fundadores do VERIFICA, porém, boa parte desse potencial ainda é pouco aproveitado. “Muitos consumidores deixam de contratar a extensão no momento da compra e depois perdem o prazo da garantia de fábrica por falta de aviso. É essa lacuna que o aplicativo busca resolver, identificando o momento certo e oferecendo a extensão diretamente pelo app, por meio de seguradoras parceiras”, explica o sócio da startup, Diogo Marchewsky.
A plataforma foi desenvolvida do zero pela equipe da startup, que usou tecnologias para dar mais segurança ao processo. “Não utilizamos nenhuma solução pronta. Isso, junto com a inteligência artificial e o blockchain que usamos para proteger os documentos gerados nas transações, é o que nos permite entregar segurança e confiabilidade tanto para o consumidor quanto para os nossos parceiros”, destaca Marchewsky. O hash gerado a cada transação é registrado em blockchain, o que dificulta fraudes ou alterações posteriores nos documentos, num processo que acontece nos bastidores, sem que o usuário precise interagir diretamente com a tecnologia. Como proteção adicional contra cópias do sistema, algo cada vez mais viável com o avanço da inteligência artificial generativa, a empresa registrou o software junto ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), garantindo a propriedade intelectual sobre a solução criada.
Além do uso individual, o aplicativo atenderá também pessoas jurídicas, como empresas e condomínios que gerenciam a garantia de múltiplos equipamentos. Indústrias e varejistas parceiros têm acesso a painéis exclusivos, com dados restritos aos seus próprios produtos e clientes e informações sobre a distribuição geográfica desses produtos pelo país. O modelo também muda a lógica atual do mercado: hoje, a venda de garantia estendida costuma ficar concentrada nos grandes varejistas, que têm volume suficiente para negociar diretamente com seguradoras. Com o VERIFICA, pequenos varejistas e fabricantes que vendem direto ao consumidor também podem oferecer a extensão e receber comissão pela venda.
O Startup Summit é um dos maiores eventos de inovação e empreendedorismo do Brasil, reunindo empreendedores, investidores e parceiros industriais: nas últimas edições, reuniu cerca de 10 mil visitantes presenciais e 30 mil pessoas online. Para Marchewsky, o evento é mais do que um palco de lançamento: “É o ponto de partida para transformar a forma como os brasileiros gerenciam, protegem e estendem a vida útil dos seus produtos”.
Sobre o VERIFICA
O VERIFICA é uma startup de Brusque (SC) que desenvolveu um aplicativo de gestão de garantias de produtos com uso de inteligência artificial e blockchain. A empresa foi fundada por cinco sócios com trajetórias complementares: Diogo Marchewsky, CEO, formado em Direito pela FURB e com MBA em Criptoativos e Blockchain pela UNICAP, soma mais de 17 anos de experiência em negócios digitais e hoje também atua com investimentos em renda variável, ativos digitais e startups; Nei Pontes, especialista em growth, performance e mídia, com mais de 20 anos de carreira, incluindo passagens por marcas como Colcci e Havan antes de se especializar em performance digital; Robson Zen, especialista em experiência do usuário e marketing, com mais de 15 anos dedicados a e-commerce, branding e análise de dados; Henrique Lourenço, especialista em produtos digitais, blockchain e ativos digitais, com mais de 18 anos de atuação em inovação, meios de pagamento e tokenização; e Lilian Salomão, COO, engenheira civil e gestora patrimonial, com mais de 35 anos de trajetória em negócios, investimentos e empreendedorismo. O aplicativo já está disponível gratuitamente: basta buscar por “VERIFICA” na App Store ou na Google Play.
Fibras sintéticas rompem antigos mitos e ganham espaço da moda esportiva à alfaiataria
Evolução tecnológica de materiais como a poliamida amplia conforto, funcionalidade e possibilidades de aplicação e coloca em xeque antigos conceitos sobre o uso de sintéticos no vestuário
“Fibra sintética não respira”, “esquenta demais” ou “algodão é sempre mais confortável”. Ideias como essas ainda fazem parte do imaginário de muitos consumidores quando o assunto é a composição das roupas. Mas a evolução da indústria têxtil nas últimas décadas vem tornando essa comparação cada vez menos simples. Com fios mais finos, novas construções de tecidos e tecnologias incorporadas às matérias-primas, fibras sintéticas passaram a entregar características que vão muito além da resistência e hoje avançam da moda esportiva para o vestuário casual e até para peças de alfaiataria.
O tema esteve no centro de uma conversa entre Carlos Modolo, da CTM, e Aguiomar Scharf, da AMC Têxtil, que discutiram os principais mitos envolvendo essas matérias-primas e como sua evolução tecnológica tem influenciado o desenvolvimento de produtos e as escolhas da indústria da moda.
Segundo Modolo, um dos principais equívocos é tratar todas as fibras sintéticas como materiais com as mesmas características. Poliéster, poliamida 6, poliamida 6.6 e polipropileno, por exemplo, apresentam comportamentos diferentes em relação à umidade, ao toque e às possibilidades de utilização. A evolução da espessura dos filamentos e das construções têxteis também permitiu melhorar o transporte da umidade e a sensação do tecido sobre a pele. “Todas as fibras têm vantagens e desvantagens”, resume Modolo. Para ele, a escolha precisa considerar principalmente a finalidade da peça e o contexto em que será utilizada.
Essa evolução ajuda a explicar por que a poliamida, por exemplo, conquistou tanto espaço em segmentos que exigem conforto e contato direto com a pele. A fibra pode proporcionar toque mais fresco, elasticidade, secagem rápida e facilidade de cuidado, características especialmente valorizadas em um país de clima predominantemente quente. Já o poliéster pode oferecer vantagens específicas em outras aplicações, como produtos que utilizam processos de sublimação para receber cores e estampas.
Natural nem sempre significa mais confortável
Outro conceito colocado em discussão é a ideia de que uma fibra natural necessariamente oferecerá maior conforto. Uma camiseta de algodão, por exemplo, absorve a transpiração, mas também pode permanecer úmida por mais tempo. Dependendo da situação de uso, tecidos sintéticos desenvolvidos para favorecer o gerenciamento da umidade podem secar mais rapidamente e proporcionar outra percepção de conforto ao consumidor.
É justamente essa capacidade de atender diferentes necessidades que fez as fibras sintéticas avançarem de categorias essencialmente esportivas para o guarda-roupa cotidiano. Peças desenvolvidas originalmente para academia, corrida ou outras práticas esportivas passaram a incorporar uma estética casual e a chegar a camisas, calças e produtos com design de alfaiataria.
Na avaliação de Aguiomar Scharf, essa transformação acompanha uma mudança de comportamento do próprio consumidor. Hoje, não basta que a roupa tenha uma boa aparência: conforto e funcionalidade ganharam peso na decisão de compra. “Ele quer estar bem vestido, mas quer estar confortável”, afirma Scharf.
Na seleção de tecidos para uma coleção, características como toque, elasticidade, sensação térmica, gramatura, transparência e caimento passaram a ser analisadas em conjunto. A tecnologia, segundo Scharf, precisa estar integrada ao produto de maneira natural, contribuindo para a experiência de uso sem comprometer o design.
Tecnologia sai da academia e chega ao dia a dia
Antiodor, proteção contra radiação ultravioleta, secagem rápida, maior elasticidade, emissão de infravermelho longo, superfícies com toque fresco ou macio são algumas das funcionalidades que passaram a ser incorporadas aos tecidos. Esse movimento acompanha uma rotina em que o consumidor também procura roupas mais versáteis e fáceis de cuidar. Peças que precisam de pouca ou nenhuma passagem a ferro, secam rapidamente e podem transitar entre diferentes ocasiões respondem a uma demanda crescente por praticidade.
A mudança pode ser percebida inclusive nas viagens. Tecidos mais leves e que ocupam menos espaço ajudam a reduzir o volume das malas, enquanto peças de secagem rápida permitem lavar uma roupa durante a viagem e utilizá-la novamente pouco tempo depois. Para Modolo, são exemplos de como a tecnologia têxtil passou a responder não apenas às necessidades estéticas, mas também a transformações na forma de viver e consumir.
Na indústria, essas características também interferem diretamente no desenvolvimento das coleções. A escolha da gramatura, do nível de elasticidade, da cobertura e do caimento é feita de acordo com o resultado esperado para cada modelagem. A evolução de fios mais finos e novas construções permite ainda desenvolver tecidos mais leves sem necessariamente abrir mão da cobertura necessária para determinadas peças.
Sustentabilidade exige uma análise mais ampla
A sustentabilidade é outro ponto em que, segundo os especialistas, conceitos simplificados podem levar a conclusões equivocadas. O debate sobre microplásticos e o descarte de fibras sintéticas é relevante, mas Modolo defende que a avaliação ambiental de uma matéria-prima precisa considerar todo o seu ciclo de vida. Isso inclui uso de água e energia, demanda por áreas produtivas, durabilidade da peça, processos industriais, possibilidade de reutilização e capacidade de reciclagem.
Nesse contexto, uma das características destacadas das fibras sintéticas é a longevidade. Peças mais resistentes podem permanecer por mais tempo em uso, ser reutilizadas por outros consumidores e, dependendo do material e da existência de uma cadeia estruturada, retornar como matéria-prima para novos produtos.
A indústria também vem desenvolvendo soluções com matérias-primas recicladas, fibras provenientes de fontes renováveis e processos de tingimento capazes de reduzir etapas posteriores de beneficiamento. De acordo com Modolo, tecnologias de reciclagem já permitem reaproveitar resíduos da própria produção e transformá-los novamente em fios com padrão de qualidade elevado, enquanto sistemas de certificação e rastreabilidade ajudam a acompanhar a origem desses materiais.
Para os especialistas, portanto, a discussão sobre sustentabilidade não deveria ser resumida à oposição entre “natural” e “sintético”. Diferentes fibras possuem impactos, vantagens e limitações, e a análise precisa considerar desde a produção até o tempo de permanência do produto em circulação.
A matéria-prima certa para cada necessidade
Mais do que substituir uma fibra pela outra, a tendência apontada pela conversa é uma indústria cada vez mais orientada pela aplicação. Performance esportiva, roupa íntima, moda casual, alfaiataria ou peças para viagem exigem características diferentes. É a partir dessa necessidade que entram fatores como composição, construção do tecido, peso, elasticidade, toque, resistência e facilidade de manutenção.
Essa lógica ajuda a explicar por que materiais sintéticos vêm ocupando um espaço cada vez maior nas coleções contemporâneas. O que antes era associado quase exclusivamente ao universo esportivo hoje aparece em produtos pensados para trabalho, lazer e diferentes momentos do cotidiano.
Ao mesmo tempo, cresce o desafio de comunicar essas transformações ao consumidor. Se durante muitos anos “sintético” esteve associado a tecidos quentes, pouco respiráveis ou de toque artificial, a evolução tecnológica tornou essa percepção cada vez mais distante de parte dos produtos disponíveis atualmente.
Para Modolo e Scharf, compreender essa mudança é fundamental tanto para quem desenvolve uma coleção quanto para quem escolhe o que vestir. No lugar de classificar uma matéria-prima como boa ou ruim apenas por sua origem, a pergunta passa a ser outra: quais características aquela fibra entrega e para qual uso elas fazem sentido?
A conversa entre Modolo e Scharf ocorreu durante a Febratex 2026 e está disponível no canal da feira no YouTube. https://youtu.be/g2ZApmNLwrM