SENAI/SC lança jornada para acelerar descarbonização na indústria

Na mesma semana em que líderes mundiais se reúnem na COP 30 para debater metas de neutralidade de carbono, o SENAI lança em Santa Catarina a Jornada de Descarbonização da Indústria. A metodologia, desenvolvida integralmente pela rede Instituto SENAI, com a expertise de três institutos de tecnologia: ambiental, cerâmica e mobilidade elétrica, combina consultoria técnica, inovação e tecnologia, com foco em reduzir emissões de gases de efeito estufa e ampliar a eficiência energética, a partir de quatro frentes: diagnóstico, estratégia, mitigação e compensação.   

O líder do Hub de Descarbonização da FIESC, Charles Leber, apresentou o modelo na abertura do II Seminário Internacional sobre Descarbonização e Eficiência Energética que FIESC e SENAI realizaram nesta quarta-feira, 12 de novembro, em Blumenau. 

O seminário reuniu pesquisadores, empresários e lideranças e discutiu soluções de descarbonização, eficiência energética e competitividade industrial. O coordenador de mercado para o Vale do Itajaí, Lucas Lazzari, destacou a importância do tema: ‘Da transição à liderança: preparando a indústria brasileira para os desafios e oportunidades globais’ e falou em nome da gerente executiva, Graziela da Silva. O Brasil é o 6º maior emissor de gases do efeito estufa do planeta. “A descarbonização deixou de ser tendência para se tornar uma prioridade estratégica das empresas”, considerou. 

A programação do encontro iniciou com um painel conduzido pelos Institutos SENAI. As palestras da pesquisadora portuguesa Maria João Rodrigues, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, e do engenheiro suíço Pirmin Aregger, cofundador da empresa Recoal, especializada em tecnologias de captura e reaproveitamento de carbono, foram os destaques internacionais, realizadas por videoconferência. 

O encontro também apresentou exemplos de como o uso de energias renováveis, consultorias técnicas e planejamento integrado destas ações, vêm gerando resultados positivos para o parque industrial catarinense.

A unidade da Nidec em Joinville, onde são fabricados os produtos Embraco, foi a primeira da empresa no mundo a alcançar neutralidade de carbono, operando 100% com energia renovável e zero envio de resíduos a aterros. A planta é responsável pela produção de soluções de refrigeração da marca Embraco, reconhecidas globalmente por sua alta eficiência energética e contribuição direta para a redução de emissões de carbono. A empresa participou do seminário, falando sobre os desafios para reduzir e compensar as emissões da indústria. 

A ZEN, de Brusque, indústria de autopeças, desde 2021, realiza o inventário de gases de efeito estufa e já reduziu em 42% a intensidade de emissões. O resultado reflete um ciclo de investimentos de R$ 150 milhões em modernização industrial e tecnologias mais limpas, incluindo um centro de transformação mecânica preparado para o uso de hidrogênio verde. 

A IPEL, de Indaial, implantou uma tecnologia inédita de aeração por ar difuso (também conhecida como bolha fina) em sua Estação de Tratamento Biológico (ETB). A inovação, pioneira no setor papeleiro brasileiro, resultou em ganhos energéticos entre 20% e 40%, conforme as condições operacionais.

O Gerente de Serviços Tecnológicos dos Institutos SENAI de Tecnologia em Santa Catarina, Alceri Antonio Schlotefeldt, destacou na abertura do evento que a jornada é “um passo firme de Santa Catarina como referência em sustentabilidade e inovação tecnológica quando o assunto é baixo carbono”, disse. 

“No SENAI estamos prontos para atender todas as indústrias, sabemos que o diagnóstico é o primeiro passo, mas a jornada é necessária, especialmente para aquelas empresas que integram cadeias produtivas e precisam se adequar às emissões máximas permitidas”, pontuou o líder do HUB, Charles Leber.      

Indústrias interessadas em se integrar à jornada de descarbonização, devem procurar os Institutos SENAI. https://institutos.sc.senai.br/   

Sobre a COP 30

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 30) será realizada no Brasil, em Belém do Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro. Delegações de 140 países se reúnem no maior evento global das Nações Unidas para discussão e negociações sobre mudança climática. Participam líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais, representantes da sociedade civil, de governos, do setor privado, e de organizações internacionais.

Medida antidumping ameaça o setor têxtil, afirmam empresários

A decisão do governo brasileiro de aplicar uma sobretaxa provisória de US$1,97 por quilo sobre o fio de poliamida 6 (PA6) importado por quatro empresas, entre elas a Yiwu Huading Nylon Co., Ltd., uma das principais fornecedoras do insumo para o mercado nacional, provocou reação imediata de empresários da cadeia têxtil. Esta matéria-prima essencial para a confecção de roupas esportivas, moda praia, meias e lingerie, não é fabricada no Brasil, o que torna a medida especialmente preocupante. A decisão do Comitê-executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior foi publicada  no Diário Oficial da União no dia 24 de outubro, disponível em https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/circular-n-83-de-21-de-outubro-de-2025-664019924

Para as empresas que dependem dos fios de poliamida 6 (PA6), a taxação impacta no custo de produção (de US$3 para US$4,97), comprometendo a competitividade do setor e colocando em risco milhares de empregos em todo o país. “O valor sobre aplicado (de US$1,97 por quilo de fio) compromete a produção de volumes competitivos. Na prática, não será possível manter as linhas de produtos à base de poliamida em nosso portfólio”, afirma o empresário Renato José Benvenuti, vice-presidente da RVB Malhas, de Brusque (SC).

Segundo dados do Relatório Setorial Brasil Têxtil 2025, (disponível em https://iemi.com.br/brasil-textil-2025/) produzido pela IEMI – Inteligência de Mercado, no saldo da balança comercial de artigos têxteis e confeccionados, os filamentos (como o poliéster e o nylon/poliamida) têm um déficit superior a 885 milhões de dólares (- US$885.157.000). As exportações respondem por US$54.801.000 e as importações por US$939.958.000.  

Com a sobretaxa gerando aumento dos custos e a redução da oferta da poliamida (PA6), o empresário de Brusque vê risco de migração do varejo para produtos importados, que não enfrentam as mesmas barreiras comerciais. “O varejo deverá substituir produtos fabricados no Brasil por peças prontas da Ásia, o que enfraquece toda a cadeia produtiva nacional”, considera Benvenuti. 

Ele acrescenta que milhares de postos de trabalho podem estar em risco, especialmente nas operações que dependem da poliamida (PA6). “A medida gera desmotivação e coloca em xeque investimentos programados. Estamos avaliando alternativas, inclusive operações no Paraguai, como outras empresas do setor”, afirma o empresário. 

A indústria catarinense de confecções é a maior do país, segundo a FIESC e o setor têxtil e de vestuário é o maior empregador do estado, gerando 178,7 mil vagas de trabalho. 

Preocupação com a sustentabilidade da produção

A CPS – Cia. de Produção Sustentável S.A (DelRio), uma das principais empresas têxteis do Ceará, também considera os impactos da decisão: “a aplicação de sobretaxas em um insumo sem equivalente nacional representa um grande risco para nossa produção. Além de elevar os custos, isso pode comprometer a nossa capacidade de entrega e até mesmo o abastecimento do mercado”, afirmou Daniel Pereira de Souza, vice-presidente da empresa.

A companhia reforça que qualquer desabastecimento afetará toda a cadeia produtiva, desde a tecelagem até a confecção, e defende a suspensão imediata da aplicação do direito provisório de dumping para preservar empregos e a sustentabilidade do setor têxtil nacional.

De acordo com a Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (https://www.abit.org.br/cont/perfil-do-setor)  a indústria têxtil e de confecção compreende 25,3 mil empresas com mais de cinco funcionários, gerando 1,3 milhão de empregos diretos e contribuindo com R$ 32,9 bilhões em salários e remunerações. Os dados ratificam a posição da indústria têxtil e de confecção brasileira como a quinta maior do mundo. 

Dados técnicos também comprovam inadequação da taxa aplicada

O valor de referência utilizado para a aplicação da medida considerado no processo de dumping é oriundo das fibras de poliamida 6.6 (PA6.6). Segundo estudo internacional sobre o assunto “a produção da poliamida 6.6 é, em termos industriais, mais exigente (monômeros, síntese, processamento) e a material tem propriedades mais robustas para aplicações técnicas/industriais. Já a poliamida 6, por seu processo mais simples e custo mais baixo, tem forte aplicação no setor têxtil de vestuário, com contínuos investimentos em inovação para eficiência produtiva, diversificação e sustentabilidade.” 

(Disponível em https://europlas.com.vn/en-US/blog-1/pa6-vs-pa66-the-differences-between-two-engineering-giants)  

Dependência de importações e risco de desabastecimento

“Com a sobretaxa, tivemos um impacto importante no volume de produção que usa fios exclusivos da Huading, principal fornecedor do mercado nacional de fios de poliamida 6”, confirma Mauro de Oliveira Ferraz, gerente de Supply Chain da Diklatex, têxtil de Joinville (SC) referência em tecidos tecnológicos. “A sobretaxa também impacta diretamente no desenvolvimento de novos produtos”, alerta Mauro.

A necessidade de equilíbrio nas políticas comerciais 

Quando consultado sobre o risco de um desequilíbrio na balança comercial, o economista Mohamed Amal, professor de Economia e Negócios Internacionais da Universidade Regional de Blumenau (FURB), considerou que “punir a empresa que está entre as principais fornecedoras de um insumo sem substituto local é arriscado. O resultado pode ser o oposto do esperado: menos competitividade, mais custos e perda de empregos. O equilíbrio entre práticas de comércio justo e a proteção da base produtiva precisa ser o foco”, avalia o economista. “A defesa comercial deve considerar a capacidade produtiva nacional e o impacto social das medidas”, complementa Amal.

Gabriel Sens, CEO da LIVE!, empresa de Jaraguá do Sul (SC),  reforça o mesmo ponto: “nós, empresários, entendemos que qualquer decisão deve preservar a continuidade das operações, o emprego e a competitividade de um dos setores que mais geram renda e oportunidades. Trata-se do futuro da indústria nacional, da manutenção de milhares de empregos e do fortalecimento da cadeia produtiva que sustenta inovação, renda e desenvolvimento regional. Avaliar com equilíbrio e responsabilidade o papel da poliamida 6 na economia brasileira é essencial para que o país continue competitivo, sustentável e capaz de inovar”, defende o CEO.

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