A decisão do governo brasileiro de aplicar uma sobretaxa provisória de US$1,97 por quilo sobre o fio de poliamida 6 (PA6) importado por quatro empresas, entre elas a Yiwu Huading Nylon Co., Ltd., uma das principais fornecedoras do insumo para o mercado nacional, provocou reação imediata de empresários da cadeia têxtil. Esta matéria-prima essencial para a confecção de roupas esportivas, moda praia, meias e lingerie, não é fabricada no Brasil, o que torna a medida especialmente preocupante. A decisão do Comitê-executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior foi publicada no Diário Oficial da União no dia 24 de outubro, disponível em https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/circular-n-83-de-21-de-outubro-de-2025-664019924)
Para as empresas que dependem dos fios de poliamida 6 (PA6), a taxação impacta no custo de produção (de US$3 para US$4,97), comprometendo a competitividade do setor e colocando em risco milhares de empregos em todo o país. “O valor sobre aplicado (de US$1,97 por quilo de fio) compromete a produção de volumes competitivos. Na prática, não será possível manter as linhas de produtos à base de poliamida em nosso portfólio”, afirma o empresário Renato José Benvenuti, vice-presidente da RVB Malhas, de Brusque (SC).
Segundo dados do Relatório Setorial Brasil Têxtil 2025, (disponível em https://iemi.com.br/brasil-textil-2025/) produzido pela IEMI – Inteligência de Mercado, no saldo da balança comercial de artigos têxteis e confeccionados, os filamentos (como o poliéster e o nylon/poliamida) têm um déficit superior a 885 milhões de dólares (- US$885.157.000). As exportações respondem por US$54.801.000 e as importações por US$939.958.000.
Com a sobretaxa gerando aumento dos custos e a redução da oferta da poliamida (PA6), o empresário de Brusque vê risco de migração do varejo para produtos importados, que não enfrentam as mesmas barreiras comerciais. “O varejo deverá substituir produtos fabricados no Brasil por peças prontas da Ásia, o que enfraquece toda a cadeia produtiva nacional”, considera Benvenuti.
Ele acrescenta que milhares de postos de trabalho podem estar em risco, especialmente nas operações que dependem da poliamida (PA6). “A medida gera desmotivação e coloca em xeque investimentos programados. Estamos avaliando alternativas, inclusive operações no Paraguai, como outras empresas do setor”, afirma o empresário.
A indústria catarinense de confecções é a maior do país, segundo a FIESC e o setor têxtil e de vestuário é o maior empregador do estado, gerando 178,7 mil vagas de trabalho.
Preocupação com a sustentabilidade da produção
A CPS – Cia. de Produção Sustentável S.A (DelRio), uma das principais empresas têxteis do Ceará, também considera os impactos da decisão: “a aplicação de sobretaxas em um insumo sem equivalente nacional representa um grande risco para nossa produção. Além de elevar os custos, isso pode comprometer a nossa capacidade de entrega e até mesmo o abastecimento do mercado”, afirmou Daniel Pereira de Souza, vice-presidente da empresa.
A companhia reforça que qualquer desabastecimento afetará toda a cadeia produtiva, desde a tecelagem até a confecção, e defende a suspensão imediata da aplicação do direito provisório de dumping para preservar empregos e a sustentabilidade do setor têxtil nacional.
De acordo com a Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (https://www.abit.org.br/cont/perfil-do-setor) a indústria têxtil e de confecção compreende 25,3 mil empresas com mais de cinco funcionários, gerando 1,3 milhão de empregos diretos e contribuindo com R$ 32,9 bilhões em salários e remunerações. Os dados ratificam a posição da indústria têxtil e de confecção brasileira como a quinta maior do mundo.
Dados técnicos também comprovam inadequação da taxa aplicada
O valor de referência utilizado para a aplicação da medida considerado no processo de dumping é oriundo das fibras de poliamida 6.6 (PA6.6). Segundo estudo internacional sobre o assunto “a produção da poliamida 6.6 é, em termos industriais, mais exigente (monômeros, síntese, processamento) e a material tem propriedades mais robustas para aplicações técnicas/industriais. Já a poliamida 6, por seu processo mais simples e custo mais baixo, tem forte aplicação no setor têxtil de vestuário, com contínuos investimentos em inovação para eficiência produtiva, diversificação e sustentabilidade.”
(Disponível em https://europlas.com.vn/en-US/blog-1/pa6-vs-pa66-the-differences-between-two-engineering-giants)
Dependência de importações e risco de desabastecimento
“Com a sobretaxa, tivemos um impacto importante no volume de produção que usa fios exclusivos da Huading, principal fornecedor do mercado nacional de fios de poliamida 6”, confirma Mauro de Oliveira Ferraz, gerente de Supply Chain da Diklatex, têxtil de Joinville (SC) referência em tecidos tecnológicos. “A sobretaxa também impacta diretamente no desenvolvimento de novos produtos”, alerta Mauro.
A necessidade de equilíbrio nas políticas comerciais
Quando consultado sobre o risco de um desequilíbrio na balança comercial, o economista Mohamed Amal, professor de Economia e Negócios Internacionais da Universidade Regional de Blumenau (FURB), considerou que “punir a empresa que está entre as principais fornecedoras de um insumo sem substituto local é arriscado. O resultado pode ser o oposto do esperado: menos competitividade, mais custos e perda de empregos. O equilíbrio entre práticas de comércio justo e a proteção da base produtiva precisa ser o foco”, avalia o economista. “A defesa comercial deve considerar a capacidade produtiva nacional e o impacto social das medidas”, complementa Amal.
Gabriel Sens, CEO da LIVE!, empresa de Jaraguá do Sul (SC), reforça o mesmo ponto: “nós, empresários, entendemos que qualquer decisão deve preservar a continuidade das operações, o emprego e a competitividade de um dos setores que mais geram renda e oportunidades. Trata-se do futuro da indústria nacional, da manutenção de milhares de empregos e do fortalecimento da cadeia produtiva que sustenta inovação, renda e desenvolvimento regional. Avaliar com equilíbrio e responsabilidade o papel da poliamida 6 na economia brasileira é essencial para que o país continue competitivo, sustentável e capaz de inovar”, defende o CEO.