Em 2023, chegou um container. Em 2024, dois. Em 2025, quatro. Para 2026, a projeção é de 55, exclusivamente de marca própria. Quem olha para essa curva de fora pode achar que se trata de uma empresa que de repente decidiu crescer. Quem conhece a história sabe que foi o oposto: cada passo foi calculado, testado e validado antes do seguinte. É exatamente esse ritmo, discreto, orientado por dados, sem pressa de aparecer, que define a Cofari.

A empresa fica em Rodeio, no interior de Santa Catarina. São pouco mais de 12 mil habitantes, uma agência dos Correios e um galpão de 4 mil m² no centro da cidade. É dali que saem 80% dos pedidos de uma operação que já entregou para 99% dos municípios brasileiros, acumula prêmios nacionais de excelência, incluindo o Prêmio RA 2025, onde sagrou-se campeã na categoria Artigos para o Lar, entre outros reconhecimentos, e que, em abril de 2026, estreou um novo nome para um novo ciclo.

Chegar a esse nível de cobertura não foi automático. Nos primeiros anos, cada pedido dependia de uma única parceria: os Correios da agência local de Rodeio. Em dias de pico, a equipe despachava 200 volumes por dia por ali, um número que rapidamente começou a pressionar os limites da operação. A solução veio de forma gradual e calculada: primeiro com transportadoras regionais, depois com centros de distribuição estratégicos fora de Santa Catarina. Hoje, 20% dos pedidos já saem de outros pontos do país, reduzindo o prazo de entrega para regiões mais distantes em até 2 dias.

Até então, chamava-se Casa Ferrari. Agora é Cofari. E a história de como chegou até aqui começa, como muitas histórias boas do empreendedorismo brasileiro, numa sala de casa.

 

2007: uma mesa, um computador e o Mercado Livre

Junior Cristofolini começou vendendo acessórios automotivos pela internet a partir de Rodeio, sem estrutura de grande varejo e sem capital para estoques volumosos. O que tinha era leitura de mercado e dados, desde o início, as decisões eram orientadas por números, não por intuição. Enquanto concorrentes do mesmo segmento apostavam no feeling, ele monitorava o desempenho de cada produto antes de ampliar o estoque.

Com o tempo, os limites do segmento automotivo foram ficando claros: novas legislações restringindo o setor, concorrência crescente, margem espremida. A decisão de mudar veio antes que o cenário obrigasse, e essa capacidade de antecipar movimentos se tornaria uma marca registrada da empresa. Em 2012, Bianca Ferrari Pacher e Bruna Ferrari Pacher entraram na sociedade, e a família estruturou papéis complementares dentro do negócio. Em abril de 2014, nasceu a Casa Ferrari, um armazém virtual que começou com vinhos de uma vinícola da própria região e foi incorporando eletrodomésticos, brinquedos e utilidades domésticas.

Muitos dos parceiros eram fabricantes locais que até então não tinham qualquer presença digital. Para eles, a Casa Ferrari foi a primeira vitrine online e essa relação com o ecossistema regional se tornaria um dos pilares culturais da empresa. “A gente sempre avaliou a demanda antes de investir em estoque. Testava cada produto em pequena escala e só escalava quando os números confirmavam a tração. Parece óbvio, mas a maioria não faz isso, e é exatamente isso que nos salvou mais de uma vez”, destacou Bianca Ferrari Pacher, sócia-fundadora.

Na prática, a divisão de papéis dentro da sociedade é o que sustenta a operação. Junior concentra a visão estratégica e comercial, é ele quem lê o mercado, antecipa movimentos e define para onde a empresa vai. Bianca responde pelo financeiro e gestão de pessoas. Bruna cuida do marketing, experiência do cliente e desenvolvimento de produtos. Pensamentos diferentes, às vezes embates, mas uma régua em comum: nenhuma decisão relevante passa sem que os números sustentem.

Crescer rápido demais e a lição que veio com a ressaca

Em 2018, dois movimentos simultâneos marcaram uma inflexão: a migração do Simples Nacional para o Lucro Real e a adoção da plataforma Magazord, da qual a empresa se tornaria um dos maiores clientes. O faturamento deu um salto e a operação passou a funcionar em outro patamar de controle financeiro e fiscal, um diferencial raro entre e-commerces de porte similar.

A pandemia de 2020 chegou como uma onda que ninguém esperava. O e-commerce brasileiro explodiu, novos consumidores migraram para o digital em semanas e as vendas da Casa Ferrari acompanharam o movimento. O problema foi entre 2022 e 2023. Com o mercado estabilizando e novos players, inclusive internacionais, ocupando espaço, a empresa se viu diante de uma escolha: segurar a operação no tamanho que estava ou tomar uma decisão difícil e rápida.

Escolheu a segunda opção. Cortes cirúrgicos, revisão de mix de produtos e uma pergunta que mudaria os rumos do negócio: se a revenda tem teto, onde está o próximo andar?

“A ressaca pós-pandemia foi brutal para muita gente no e-commerce. O que nos diferenciou foi não ter esperado a situação piorar para agir. A gente olhou para os números, aceitou o que eles estavam dizendo e mudou a rota antes de precisar. A empresa que espera sinal de fumaça para reagir já está atrasada”, contou Junior Cristofolini, sócio-fundador e líder estratégico. 

A postura rendeu resultados concretos: RA1000 do Reclame Aqui (2023), Magazord Awards 2025 na categoria Casa e Construção, Prêmio RA 2025, campeã nacional em Artigos para o Lar, e certificação Great Place to Work, entre outros reconhecimentos. Números de atendimento e reputação que, no e-commerce, valem tanto quanto os de faturamento.

A virada: sair da guerra de preços e construir algo que só ela vende

Revender produtos de terceiros funciona, mas tem um teto conhecido. Margem comprimida, conflito de canais, fornecedores que vendem o mesmo produto para dez concorrentes ao mesmo tempo. Qualquer diferenciação dura até o próximo vendedor baixar R$2,00 no preço. A Cofari conhecia bem esse teto. E decidiu furar.

A estratégia começou com cautela, do jeito que a empresa sempre fez as coisas. Em 2023, chegou o primeiro container, para testar a cadeia de importação e validar a operação. Funcionou. Em 2025, nasceu a Bem Casa, primeira marca própria da empresa, focada em artigos para o lar, desenvolvida para competir em qualidade e preço nos principais canais digitais do país, mas vendida exclusivamente pela Cofari.

“Quando você revende, está sempre numa guerra que não tem fim. Quando você tem marca própria, você sai dessa guerra e começa a jogar um jogo diferente. A Bem Casa não é só uma linha de produtos, é a nossa aposta de que daqui a dez anos ainda vamos estar aqui, crescendo”, pontua Bruna Ferrari Pacher, sócia-fundadora.

A curva que começou com 1 container em 2023 chega a 2026 com projeção de 55. A meta para 2027 é ultrapassar 100. O e-commerce brasileiro faturou R$235,5 bilhões em 2025, crescimento de 15,3% em relação ao ano anterior, segundo a ABIACOM. Nesse cenário, empresas com marca própria e capacidade de importação têm se destacado como as mais resilientes, exatamente porque não dependem de nenhum fornecedor para existir.

O nome que resume tudo

Em abril de 2026, a Casa Ferrari virou Cofari. O rebranding não foi apenas estético. O nome carrega um código que a empresa já vivia internamente: CO de Coração, FA de Família e RI de Ferrari. Três sílabas que resumem os pilares de uma trajetória construída longe dos holofotes, e que agora chega ao mercado com nome novo, marca própria e plano de escala concreto.

O novo posicionamento aposta no relacionamento como estratégia central: gerar valor antes de vender, construir audiência antes de anunciar. A venda como consequência, não como ponto de partida. “Cofari não é só um nome novo. É o compromisso de que tudo que construímos até aqui foi o começo, não o destino”, declara Junior Cristofolini. 

A meta é chegar a R$500 milhões em faturamento acumulado até o final de 2026. De uma sala em Rodeio para praticamente todo o Brasil, com 30 pessoas, um galpão e uma aposta construída container por container, em silêncio.