Você provavelmente estudou a Revolução Francesa e as duas Guerras Mundiais na escola. Mas e a guerra que aconteceu aqui, na divisa entre Santa Catarina e Paraná, e deixou milhares de mortos? Entre outubro de 1912 e agosto de 1916, o interior de Santa Catarina foi palco de um dos conflitos mais violentos e menos lembrados da história brasileira: a Guerra do Contestado. De um lado, posseiros e pequenos proprietários de terras; do outro, os governos de Santa Catarina, do Paraná e o Governo Federal, numa disputa que misturava questões territoriais, sociais, econômicas e religiosas.
Foi esse episódio que deu origem a “O Bruxo do Contestado”, romance do escritor catarinense e membro da Academia Brasileira de Letras Godofredo de Oliveira Neto, publicado originalmente em 1996.
O nome do conflito vem da sua origem: uma vasta região rica em erva-mate e madeira, reivindicada ao mesmo tempo por Santa Catarina e pelo Paraná. A construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, conduzida pela empresa norte-americana Brazil Railway Company, levou à desapropriação de terras e à expulsão de posseiros. A esse cenário somou-se a forte religiosidade cabocla, marcada pela fé nos monges peregrinos que circulavam pela região, como João Maria e José Maria.
“Foi uma guerra de gente pobre, expulsa da própria terra, que pegou em armas para defender o pouco que tinha. E mesmo assim continua sendo um dos conflitos menos lembrados do país”, observa Godofredo de Oliveira Neto, autor catarinense que escreveu um livro sobre o conflito.
A morte do monge José Maria, na batalha do Irani, em outubro de 1912, é apontada como o estopim da guerra. Nos anos seguintes, o conflito mobilizou milhares de soldados das forças federais e estaduais contra os sertanejos revoltados, e foi nele que, pela primeira vez no Brasil, aviões foram usados em operações militares. Milhares de pessoas, sobretudo da população cabocla, morreram em combate, de fome ou por epidemias, até o fim oficial do conflito, em 1916.
Um romance que nasceu de memórias familiares
Foi a partir desse episódio que Godofredo de Oliveira Neto escreveu “O Bruxo do Contestado”, publicado originalmente em 1996. Nascido em Blumenau, o autor encontrou parte da inspiração nas histórias que ouviu desde a infância, contadas por familiares que viveram aquele período, entre eles um tio, conhecido como General Mesquita do Contestado.
No romance, o conflito aparece entrelaçado às memórias dos personagens e às transformações vividas pelo Brasil ao longo do século XX. A narrativa é conduzida por Tecla, que recupera fragmentos de diferentes períodos históricos, do próprio Contestado à Segunda Guerra Mundial e aos anos iniciais do regime militar de 1964.
“O Contestado faz parte da formação de Santa Catarina, mas é uma história que muita gente daqui ainda desconhece. Quis trazer esse episódio para a literatura justamente para que ele não se perdesse”, afirma o autor.
Três décadas depois da primeira edição, o romance segue atual. Desde o lançamento, a obra despertou interesse da crítica e do meio acadêmico: foi considerada uma das revelações literárias de 1996 pela Folha de S.Paulo e pela revista Veja, integrou listas de leitura de vestibulares e chegou a ser adotada como material de estudo na Academia Militar das Agulhas Negras.
Sobre o autor
Godofredo de Oliveira Neto nasceu em Blumenau (SC), em 1951. Estudou Direito e Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, posteriormente, fez pós-graduação na Universidade de Sorbonne, em Paris.
Escritor, professor universitário e intelectual de renome no Brasil, é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2022, sendo o único escritor catarinense a integrar a instituição. Com mais de 20 livros publicados e premiados, traduzidos para diversas línguas, sua carreira acadêmica e literária inclui romances, contos, ensaios e livros acadêmicos, sendo um grande defensor da cultura e da educação em Santa Catarina.