Participei nesta quinta-feira (29), a convite da LRO Advogados, de uma palestra de Gui Ferreira, da Atomsix, sobre inteligência artificial e o futuro das empresas. Entre exemplos de aplicações que já estão transformando negócios e previsões sobre o que ainda está por vir, uma reflexão me chamou especialmente a atenção: utilizar inteligência artificial não significa, necessariamente, tornar uma empresa mais produtiva.

Parece contraditório, principalmente quando pensamos na velocidade com que essas ferramentas estão sendo incorporadas ao cotidiano profissional. Mas os números ajudam a compreender essa diferença.

Segundo o estudo The State of AI in 2026, da McKinsey, 89% das organizações pesquisadas já utilizam inteligência artificial regularmente em pelo menos uma função. Entretanto, apenas 37% relatam algum impacto positivo da tecnologia no resultado operacional.

Outro dado interessante: 80% dos entrevistados afirmam que a IA melhorou sua produtividade individual.

Ou seja, os ganhos existem. Mas nem sempre chegam ao resultado da empresa.

E acredito que essa diferença merece muito mais atenção dos empresários.

Estamos usando novas ferramentas para continuar fazendo as mesmas coisas?

Um dos exemplos apresentados por Ferreira durante a palestra foi o da chegada dos motores elétricos às indústrias.

Quando essa tecnologia surgiu, muitas fábricas simplesmente substituíram seus motores a vapor pelos elétricos, mantendo praticamente a mesma estrutura de produção.

Os ganhos mais expressivos vieram quando perceberam que não precisavam apenas substituir uma fonte de energia. Poderiam reorganizar toda a operação, distribuindo motores menores pelas máquinas e redesenhando os processos produtivos.

A tecnologia abriu possibilidades que não existiam antes. Mas foi necessário mudar a forma de trabalhar para aproveitá-las.

Vejo uma relação direta com o momento que estamos vivendo.

Hoje, um profissional pode utilizar IA para produzir uma apresentação em minutos, analisar planilhas, responder mensagens ou executar atividades que antes consumiam horas.

Mas o que acontece com esse tempo economizado? Como essa agilidade melhora a operação? Que oportunidades a empresa consegue aproveitar? Quais resultados efetivamente mudam?

Essas perguntas são tão importantes quanto conhecer as ferramentas disponíveis.

E existe outro risco: automatizar processos que já são ineficientes. Nesse caso, podemos simplesmente passar a executar mais rapidamente atividades que precisariam ser revistas.

Uma reflexão que também vale para comunicação e marketing

Trabalho com comunicação desde 1999 e acompanhei muitas mudanças na maneira como empresas e profissionais se relacionam com seus públicos.

Vi a internet transformar a circulação de informações, as redes sociais ampliarem as possibilidades de exposição das marcas e as plataformas digitais modificarem profundamente o relacionamento com os consumidores.

Agora, acompanhamos a inteligência artificial provocar uma transformação de outra dimensão.

Cada avanço traz novas possibilidades, mas também uma tentação recorrente: acreditar que adotar a ferramenta mais recente significa, por si só, evoluir.

Na comunicação e no marketing, isso aparece de maneira bastante clara.

Uma empresa pode utilizar inteligência artificial para produzir dezenas de publicações, criar vídeos, desenvolver campanhas e automatizar diferentes atividades. Tudo isso pode representar ganhos importantes de tempo e eficiência.

Mas, se ela não compreende seu público, não consegue demonstrar seus diferenciais ou não tem clareza sobre o posicionamento que deseja construir, produzir mais rapidamente não resolve essas questões.

A facilidade de execução pode, inclusive, ampliar problemas que já existiam.

Imagine uma empresa que tem dificuldade de comunicar por que seus produtos ou serviços merecem ser escolhidos. Se ela passa a produzir o triplo de conteúdos utilizando inteligência artificial, mas continua reproduzindo mensagens genéricas, terá ampliado sua presença sem necessariamente fortalecer sua diferenciação.

E isso se torna ainda mais relevante à medida que as ferramentas ficam acessíveis a praticamente todos.

Quando produzir se torna fácil, diferenciar-se fica mais difícil.

O valor de compreender o problema antes de escolher a solução

Outro exemplo apresentado na palestra reforçou uma convicção que orienta minha maneira de trabalhar.

Ferreira compartilhou um projeto desenvolvido para a Portonave, em Navegantes, que buscava ampliar sua capacidade de movimentação de caminhões.

Em vez de simplesmente entregar um novo sistema, conforme a demanda inicial, a equipe analisou a operação, observou os processos e identificou oportunidades de melhoria que iam além da solução inicialmente imaginada.

Segundo os resultados apresentados por ele, as mudanças contribuíram para elevar a capacidade de atendimento de aproximadamente 900 para até 3.300 caminhões por dia.

O que considero mais interessante nesse exemplo não é apenas o resultado alcançado, mas o raciocínio que orientou o trabalho.

O cliente chegou com uma demanda. A equipe procurou compreender o problema antes de definir a solução.

Essa é uma abordagem que valorizo muito na comunicação e no marketing.

Quando um empresário procura a Presse dizendo que precisa melhorar suas redes sociais, por exemplo, é importante compreender o que ele espera conquistar.

Ele quer aumentar o reconhecimento da marca? Atrair um público diferente? Gerar oportunidades comerciais? Fortalecer sua reputação? Comunicar melhor um diferencial que o mercado ainda não reconhece?

As respostas influenciam completamente o trabalho a ser desenvolvido.

O mesmo vale para a inteligência artificial.

Antes de decidir qual tecnologia implementar, precisamos entender o que queremos melhorar e de que maneira vamos avaliar se conseguimos.

As empresas precisam desenvolver maturidade, não apenas adotar ferramentas

Durante a palestra, Gui apresentou três níveis de maturidade no uso de inteligência artificial.

No primeiro, as ferramentas são utilizadas individualmente para facilitar tarefas. No segundo, começam a ser incorporadas aos processos de departamentos inteiros. No terceiro, passam a integrar a estrutura da organização, com governança, processos, dados e equipes trabalhando de maneira coordenada.

Essa evolução exige decisões que vão muito além da contratação de plataformas.

Envolve preparar pessoas, rever processos, estabelecer responsabilidades, proteger informações e criar indicadores que permitam avaliar resultados.

Também exige capacidade de reconhecer onde a tecnologia pode contribuir e onde o julgamento humano continua sendo indispensável.

Acredito que as empresas que conseguirem combinar essas competências estarão mais preparadas para aproveitar as oportunidades que surgirão.

O que realmente fará diferença daqui para frente?

Uma das questões que a evolução da inteligência artificial coloca para os negócios é o que acontecerá quando determinadas capacidades estiverem disponíveis para praticamente todo mundo.

Se produzir conteúdos, criar apresentações, desenvolver sistemas e automatizar atividades se torna cada vez mais acessível, a simples capacidade de executar essas tarefas deixa de representar uma vantagem tão expressiva.

A diferenciação passa a depender ainda mais de como cada empresa utiliza esses recursos, das decisões que toma, do conhecimento que possui sobre seu mercado e da experiência que oferece aos clientes.

Isso não diminui a importância da tecnologia. Pelo contrário, aumenta a responsabilidade de utilizá-la bem.

Não acredito que seja possível acompanhar todas as novidades ou experimentar todas as ferramentas que surgem. Mas considero fundamental compreender o que está mudando, avaliar as possibilidades e fazer escolhas coerentes com a realidade de cada negócio.

Saí da palestra ainda mais convencida de que a inteligência artificial merece estar na agenda dos empresários. Não apenas como uma discussão sobre ferramentas, mas como parte das decisões sobre produtividade, competitividade e futuro.

A pergunta que eu levaria para uma reunião de planejamento não seria apenas “onde podemos usar inteligência artificial?”, mas “o que precisamos fazer melhor na nossa empresa e como a tecnologia pode nos ajudar?”.

A diferença entre essas duas perguntas pode determinar a qualidade das respostas que encontraremos.

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Fernanda Momm é jornalista, especialista em Comunicação Empresarial e Marketing Digital, empresária e cofundadora da Presse Comunicação, onde atua com estratégias de comunicação, marketing, posicionamento e reputação para empresas e profissionais.

Referências para o artigo: McKinsey & Company. The State of AI in 2026: On the Road to ROI. Agosto de 2026 e Palestra de Gui Ferreira, da Atomsix, realizada em 29 de outubro de 2026, a convite da LRO Advogados.